Egito – Grécia – Judeia – Roma e Norte da África 1.500 a.C. ao século IV da era cristã.
Gnosticismo, do grego gnosis (conhecimento), é um termo contemporâneo que se refere a várias escolas de pensamento espiritual, as quais enfatizam a obtenção do conhecimento revelado do divino como meio para a transformação da consciência espiritual e a transcendência do mundo físico. Embora tendências gnósticas possam ser encontradas em várias religiões do mundo, o termo “gnosticismo” é frequentemente usado para se referir a um conjunto de escolas cristãs “gnósticas” do segundo ao quarto século d.C., o período do cristianismo primitivo antes que a ortodoxia se tornasse obrigatória. Um líder-chave do movimento gnóstico foi Valentino (c. 100-c. 160 d.C.), que fundou uma seita influente no segundo século em Roma.

Sophia – Sabedoria Divina (ícone)
O gnosticismo valentiniano pressupõe um ser central, Bythos, de quem emanam três pares de éons, ou seres que representam opostos cosmológicos (como masculino e feminino); desses três pares emanam outros, perfazendo um total de trinta éons. Todos os éons juntos constituem o reino do ser espiritual (o pleroma). Mas o último éon, Sophia, pecou por ter uma prole, Achamoth, que criou um mundo rival (kenoma, grego para “vácuo”); uma “divindade” criadora imitadora rival, o Demiurgo (identificado com o Deus do Antigo Testamento), gera o universo físico. O cristianismo gnóstico, embora relacionado tanto ao Antigo Testamento quanto à figura de Cristo, incorpora elementos do gnosticismo egípcio e do platonismo. O conhecimento de Valentino e do gnosticismo aumentou com a descoberta, em 1945, da biblioteca de Nag Hammadi, uma série de textos cristãos gnósticos primitivos preservados, descobertos enterrados em Nag Hammadi, no alto Egito.
A Gnose, portanto, é, de forma geral, um conceito que se refere ao conhecimento espiritual ou místico, voltado para a compreensão direta e transformadora das realidades divinas ou transcendentais.
Não é simplesmente “saber” no sentido intelectual — a gnose envolve uma experiência interior que ilumina e liberta, muitas vezes associada à transfiguração ou transcendência de alma (psiqué – grego) e espírito (atmã – sânscrito) que convergem a um grau de consciência de iluminação – conexão ou retorno ao Logos.
No contexto dos primeiros séculos da Era Cristã, o termo foi usado por correntes chamadas gnósticas.
Para esses grupos, o mundo material era visto como imperfeito ou mesmo prisioneiro, criado por uma divindade inferior (o “demiurgo”), e a gnose era o caminho de volta à verdadeira divindade, através do autoconhecimento e da revelação interior.
Mistura de elementos da filosofia grega (especialmente platônica), religiões orientais e judaísmo apocalíptico convergem na gnose como uma “chave” para transcender a ignorância (agnosia) e despertar para a realidade superior.
Características principais:
Conhecimento intuitivo: não depende apenas de raciocínio lógico, mas de uma vivência pessoal e interior (despertar de consciência).
Caráter libertador: a gnose liberta o indivíduo do apego ao mundo material e da ignorância espiritual.
Revelação: muitas vezes é transmitida por um mestre, um salvador ou por experiências místicas.
Dualismo: em muitas correntes gnósticas, há uma separação radical entre o mundo material (decadente) e o espiritual (perfeito).
Hoje, a palavra “gnose” é usada em sentidos amplos:
- Esotérico: conhecimento oculto ou místico que supostamente revela verdades profundas sobre o universo e o ser, transmutando a consciência humana em divina.
- Filosófico-religioso: como sinônimo de iluminação espiritual.
- Acadêmico: estudo histórico do gnosticismo e das correntes místicas da Antiguidade.
Natureza do conhecimento Gnóstico.
- Gnose: é um conhecimento direto e interior, muitas vezes místico ou intuitivo, que vem da experiência pessoal. Não depende apenas de ensino externo ou autoridade, mas de um “despertar” da consciência, que será guiado por um mestre em um colégio iniciático. Para o gnóstico, a salvação vem de compreender com a mente superior (Manas) a realidade divina do Homem.
- Fé: É confiança ou crença baseada na aceitação de algo como verdadeiro, mesmo sem evidência direta. Na teologia cristã, por exemplo, fé é confiar em Deus e na revelação contida nas Escrituras, mesmo sem “ver” ou “provar” empiricamente, o que deveria implicar em cuidados sobre reais verdades ou simplesmente narrativas dogmáticas, impostas aos crentes e fiéis.
Na gnose a transformação ocorre pela libertação da ignorância (agnosia) e pelo retorno ao divino através do conhecimento profundo. Na fé a salvação é alcançada pela confiança e obediência a Deus, independentemente de se possuir um conhecimento profundo ou não. A confiança e obediência a Deus é dogmática, na entidade ou representante que afirma ser a palavra de Deus sobre a terra, por exemplo a Igreja Católica Romana, A Torá Judaica ou a Igreja Ortodoxa Bizantina.
As tradições e colégios gnósticos antigas, e no cristianismo primitivo, viam a fé comum como uma etapa inicial de uma trajetória espiritual, algo positivo como os princípios do assentamento moral no neófito que avançaria na sua transmutação espiritual em uma vida, ou várias, porque o cristianismo primitivo adotava a reencarnação, a qual foi banida como heresia pela Igreja Romana após o Concílio de Constantinopla. O cristianismo ortodoxo rejeitou o gnosticismo, considerando-o herético, justamente porque colocava o conhecimento secreto acima da fé simples e universal. Naturalmente era um empecilho para os fins dogmáticos de grandes porções de povos e populações.
1. Gnose no cristianismo primitivo.
Nos primeiros séculos (séculos I–III), havia comunidades cristãs que se identificavam como portadoras de uma revelação mais profunda (gnosis), a exemplo da Ordem dos Essênios no Sinai, que segundo tradições esotéricas, teria iniciado o Cristo jovem em seu colégio iniciático.
Textos encontrados em Nag Hammadi (Egito, 1945) mostram evangelhos e escritos cristãos com forte ênfase na gnose, como o Evangelho de Tomé e o Evangelho de Filipe. Para muitos desses grupos, a mensagem de Cristo não era apenas redenção pela fé, mas um caminho de autoconhecimento espiritual que libertava a alma do mundo material denso.
2. Conexão com o platonismo
Mundo das ideias: O platonismo defendia que o mundo sensível era apenas uma sombra de uma realidade superior, imutável. Essa visão influenciou fortemente o pensamento gnóstico.
Dualismo: A divisão entre espírito (puro) e matéria (imperfeita) já estava no platonismo e foi resgata por mestres gnósticos.
Escolas neoplatônicas: Já no século III, Plotino critica e ao mesmo tempo compartilha certas bases com o gnosticismo, como a ênfase na ascensão da alma.
3. Raízes egípcias e herméticas
Hermes Trismegisto: Figura mítica associada aos textos iniciáticos conhecidos como Corpus Hermeticum, escritos entre os séculos II a.C. e IV d.C., que mesclam filosofia grega à espiritualidade egípcia atrelada a iniciação dos filósofos gregos como Platão, Pitágoras e Thales de Mileto nas escolas iniciáticas herméticas do Egito.
Colégios iniciáticos egípcios: Segundo tradições esotéricas, esses colégios transmitiam ensinamentos secretos sobre a natureza do divino, a alma e o cosmos. A ênfase no conhecimento reservado somente a iniciados ecoa no gnosticismo. Portanto, é plausível que o Egito helenístico (Alexandria) tenha sido o grande caldeirão cultural onde judaísmo, platonismo, hermetismo e os primeiros cristianismos gnósticos se encontraram.
Antigo Egito ───────
│ Sabedoria sacerdotal,
│ Ritos de iniciação,
│ Verdades sobre alma e além-túmulo
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Hermetismo (Hermes Trismegisto)
│ Textos herméticos (Corpus Hermeticum)
│ Filosofia espiritual egípcia + pensamento grego
│ Cosmologia mística, divindade suprema, ascensão da alma e espírito
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Alexandria helenística ──
│ Mistura cultural: platonismo, estoicismo, judaísmo,
│ Tradições orientais e egípcias
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Platonismo / Neoplatonismo│
│ Mundo sensível vs. mundo das ideias,
│ Dualismo espírito-matéria, hierarquia dos seres
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Judaísmo helenístico (Filon de Alexandria)
│ Interpretação alegórica da Torá,
│ Logos como mediador entre Deus e o mundo
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Cristianismo primitivo gnóstico
│ Evangelhos e escritos com foco no conhecimento (gnose) como salvação
│ Ex.: Evangelho de Tomé, Evangelho de Filipe,
│ Pistis Sophia
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Tradições gnósticas (séc. II–III)
└─> Diversos sistemas (valentinianos, sethianos, basilidianos) que combinam:
– Cristo como revelador da gnose
– Cosmologia dualista
– Mitos de queda e retorno da alma

Bibliografia recomendada:
O Mistério do Pergaminho de Cobre de Qumran – O Registro dos Essênios do Tesouro de Akhenaton, Robert Feather, 1999, 2006 – Editora Madras
Cristianismo Esotérico , e Os Mistérios Menores, Annie Besant, 2015 – Editora Madras.
O Caminho dos Essênios – A vida oculta de Cristo relembrada, Anne e Daniel Meurois – Givaudan, 1987, Editora Objetivo.
O Caminho dos Essênios Volume 2 – As revelações da Terra de Kal, Anne e Daniel Meurois – Givaudan, 2005, Conhecimento Editorial.

